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Planalto: História dos judeus em Leomil atraiu várias dezenas de pessoas

03 Setembro 2021

A presença judaica em Leomil continua bem patente na vila. De um passado sofrido, a população guardou o melhor e quando apelidados de judeus não só ninguém se importa como organiza festas e mercados em que esses tempos complexos são evocados. O historiador local, com vasta experiência em várias áreas, Jaime Gouveia, também ele nascido em Leomil, guiou um vasto grupo de dezenas de pessoas por essa altura sinistra, provando que a História e os seus vestígios podem ser elementos que atraem pessoas que gostam de ver e de ouvir contar.

Após a Reconquista Cristã, batalhada aos mouros que deixaram por este território rastos de destruição e crueldade muito tempo antes, o Conde D. Henrique deve muito a dois nomes fulcrais desta viragem: Paio Rodrigues e Garcia Rodrigues. A este último entrega Leomil como couto, “o que lhe confere total poder. Naquela zona protegida não entram homens do rei, nada. Conscientes dessa aparente proteção, as minorias religiosas para ali se deslocam, procurando abrigo. Mas com restrições. Vivem em bairros separados do resto da população.

“O bairro do Cancelo é um desses exemplos. Em guetos. A comunidade judaica podia até comunicar com a população, mas quando chegava o fim do dia, tinham de ir para o seu bairro e fechá-lo. Daí o nome cancelo.”. Em Leomil havia, por exemplo, dois solares da família Coutinho, que antes se designava Coitinho. Esta família expandiu-se territorialmente, por alianças familiares, por várias terras numa área de 276 km quadrados onde havia várias comunidades judaicas.

Jaime Gouveia relembra que, a dada altura, em 1492, os Reis Católicos Espanhóis, Fernando e Isabel ordenaram a expulsão de todos os judeus do seu País. Portugal vê-se pressionado a fazer o mesmo, mas D. Manuel sabia que os judeus eram grandes banqueiros, impulsionadores do comércio, da expansão e dos Descobrimentos Marítimos. Então decreta a sua expulsão, com, quatro pontos que, cumpridos, ou os depauperaria totalmente ou faria com que tivessem de abandonar os filhos.

“A ideia era fazer com que se reconvertessem à fé cristã”, sublinha o historiador. E em Leomil também o fizerem. Para que não restassem dúvidas da força da sua cristandade, os judeus “insculpiram” (esculpir no granito era difícil) cruzes nas paredes da casa. “Na verdade, continuaram a praticar a sua religião”. Este aparecimento de elementos cruciformes apareceu um pouco por toda a parte. Vivia-se um clima de terror entre estes cristãos novos. Criada a Inquisição eram perseguidos e, se não cumprissem, estas e outras minorias eram queimadas na fogueira.

No entanto, num muro de propriedade chegou a encontrar-se a inscrição IOD I (que poderá ser IOD Ioderum) cuja interpretação se julga querer dizer “ Deus dos Judeus”. A Casa dos Mergulhões lá está a provar também o passado das judiarias. Gente de dinheiro, ligados aos Lucena de Espanha, “Mergulhões de mergulhar. Da altura em que se batizaram os judeus à pressa, em massa. Baptizados em pé para a reconversão”. Assim como o nome de Semitela, que derivará de Semitas.

Depois de subir alguns quilómetros pela serra, a chegada às “Mourarias”, onde vários séculos antes passou a fúria de um grupo de muçulmanos resultou na expulsão de uma pequena comunidade de cristãos visigodos que ali viviam pacificamente. O tempo encarregou-se de continuar o movimento de conquistadores e quando os mouros carregaram na região, passaram pelo mosteiro Archense, em Arcas, degolaram a abadessa e as freiras, arrasaram o Castelo de Caria e apoderaram-se de Leomil nos finais do século IX, com o cruel Almançor à cabeça.

Foi uma visita de que todos disseram ter gostado, onde o diretor artístico do Planalto, Luís André Sá aproveitou para que se refletisse sobre os guetos de hoje, nas marginalizações, nas exclusões de todo o tipo. “Temos de sair daqui a pensar qual o contributo que podemos dar para que estas coisas não aconteçam”.

Visualizar todo o programa do Planalto aqui.

Conteúdo atualizado em3 de setembro de 2021às 16:26