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Lilaz Carriço parte com quase 100 anos (parte II)

09 Setembro 2021

Lilaz Carriço era conhecida a nível nacional pelos seus livros didáticos de Literatura Prática sobre os poetas clássicos - e eram muitos - que passaram pelas mãos de um sem número de estudantes do liceu, durante gerações, mas também uma exímia docente, investigadora, poeta, que dedicou a maior parte da vida a lecionar no Liceu Carolina Michäelis, no Porto. Mas quando chegou a altura de se reformar, não tendo família no Porto, resolveu mudar-se para Moimenta da Beira, terra dos seus pais.

Embora os seus progenitores, António dos Santos Carriço e Emília dos Santos Matos, fossem de Cabaços, a dada altura, emigraram para Manaus, no Amazonas, Brasil, onde a docente nasceu em 1917. Quando a família regressou e se instalou em Coimbra, com três filhos, Lilaz tinha 12 anos e passou a conhecer a pequena localidade dos pais e também Moimenta, durante as férias.

A família cresceu, os irmãos tiveram filhas, a maior das quais residentes em Lisboa, outras que acabaram por emigrar, daí que a escolha de Lilaz tenha recaído sobre região das Terras do Demo, que lhe era familiar, pacata e segura e onde, quem sabe por razões idênticas, morava a sua única irmã viva, Natércia, conhecida na vila pelo seu dom de parteira-enfermeira. Uma união aprofundada desde a altura da morte da mãe, aos 20 anos de Lilaz.

Na vila, dedicou-se à escrita, deu palestras em instituições a nível nacional, foi explicadora de Português, Grego e Latim e, durante a sua longa vida, até a saúde o permitir, foi uma mulher ativa e com garra. Chegou a ser criada uma fundação em seu nome, com um acervo próprio, também destinada a atribuir bolsas de estudo a estudantes carenciados que quisessem continuar a estudar e não tivessem meios para tal. Essas bolsas terão deixado de existir com a extinção das fundações, mas, diz quem a conhece que Lilaz Carriço terá continuado a ajudar vários alunos, pois era uma situação que a comovia muito.

Muitas pessoas a conheceram profissionalmente e outras tantas recordam o seu caráter algo excêntrico; ora afável, ora reservada, um pouco mau- feitio, um quê de teimosia, mas de uma doçura ímpar quando levada de igual modo e uma apaixonada pelas sobrinhas mais próximas. Viajou sempre enquanto pôde. Quando o tempo começou a fragilizá-la mais, a reconhecida apaixonada pela obra de Camões, doou o seu acervo à Câmara Municipal. Depois, deixou que uns pretensos amigos passassem a tomar conta dela.

As coisas não correram bem, no que toca aos bens da escritora. A quebra de confiança abalou-a de tal forma que agravou o seu estado físico e psicológico (senilidade). A seguir, mudou-se para os cuidados de outros, tudo correu pior ainda. Lilaz Carriço foi convidada para uma homenagem no Liceu Carolina Michäelis e não foi... Os seus últimos anos foram de isolamento, com excepção da visita de alguns amigos. A vida, contudo, foi de uma riqueza incomparável. E foi, felizmente, com essas memórias que partiu a um mês de completar cem anos. A mulher dos mil sonetos. Dos poetas clássicos. A mulher que ensinou milhares de alunos a ler poesia e romances clássicos.

 

Eu amo o Sol, a Lua, o Céu, o Mar,
As estrelas, as nuvens, noite e dia,
Na leveza das aves a voar,
Lá vai a divagar a fantasia

Amo os peixes, tão ágeis, a nadar,
E das plantas, a forma e a harmonia
Os rios entre os montes a passar,
Os lagos, os desertos sem magia.

Amo as crianças, mimos de beleza,
Amo do Mundo, tudo o que é certeza
De Criação, como o animal feroz

Eu amo o fogo, o vento, o frio e a neve
Eu amo a chuva furtigante ou leve!
Só não consigo amar o tempo atroz!

“Miragem no Tempo”, Lilaz Carriço
(livro dedicado aos pais)

 

Fontes:
Câmara Municipal de Moimenta da Beira
Informação oficiais
Testemunhos familiares
Amigos

Conteúdo atualizado em11 de setembro de 2021às 10:10