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Lilaz Carriço: Dama dos mil sonetos, pedagoga da poesia (parte I)

21 Agosto 2021

Lilaz Carriço não foi uma mulher comum. Sobressaiu no seu tempo ao atravessar-se no trajeto académico de um sem fim de estudantes. Faltou-lhe um ano para completar um século de vida. Quem vive um século, ainda que não o saiba, tem ao dispor um manancial de tempo reservado a poucos. A nossa poeta, pedagoga, autora, investigadora, aproveitou-o bem, tendo criado manuais de referência que serviram de guia pela obra dos nossos poetas clássicos. Milhares de alunos de várias gerações, professores, investigadores, leitores curiosos aprenderam com e por eles. Era uma poeta apaixonada por poetas.

Mas quem era Lilaz e como terá sido viver tão longamente, quando o senso comum o considera uma dádiva? Quando Lilaz Carriço nasceu, em 19 de Fevereiro de 1917, já os pais, António dos Santos Carriço e Emília dos Santos Matos, estavam emigrados em Manaus, no Amazonas, Brasil. Destino longínquo para quem tinha como naturalidade Cabaços, uma pacata aldeia de Moimenta da Beira. Lilaz teve um irmão e uma irmã. A família só regressou a Portugal, mais concretamente a Coimbra, quando Lilaz tinha 12 anos.

Era frequente a família vir a Cabaços pois ainda possuía aí a sua residência. Aos 20 anos perde a mãe, o que, naturalmente, lhe causa um profundo desgosto, que trespassa muitos dos seus poemas escritos décadas depois. Natércia, a irmã, pessoa que se tornou bem conhecida na nossa vila por ter sido a enfermeira-parteira responsável por trazer ao mundo centenas de bebés na região tem, nesta fase. 17 anos, e passa a ser o seu amparo. Com 21 anos, Lilás Carriço termina o Curso Complementar no Liceu Carolina Michäelis e recebe o Prémio Gomes de Sousa.

Em 1945 licencia-se em Filologia Clássica pela Universidade de Coimbra e a sua fase mais criativa e original está no auge. Dá aulas em Coimbra, no Liceu de Viseu, em Cabo Verde, e, algures por estes azafamados anos, morre-lhe o irmão, ainda relativamente novo, residente em Lisboa, deixando três filhas. Lilaz tem diversas sobrinhas, dos dois irmãos, mas quase toda estão na capital. Outras acabam até depois por emigrar. No Carolina Michäelis, a docente instala-se por mais tempo, ministrando as suas aulas de Literatura de Grego e Latim.

Autora de vários livros para vários anos de escolaridade, é com Literatura Prática I, II e II que se destaca, simplificando ou “ajudando” na interpretação dos autores clássicos, numa paleta onde, à primeira vista, não parece faltar nenhum. Por ordem aleatória, a sua grande paixão: Luís Vaz de Camões, sobre quem escreve mesmo um livro à parte, “A Arte Literária na Poética Camoniana”, (1973), até Gil Vicente, Mário de Sá Carneiro, Camilo Pessanha, Almeida Garret, Júlio Dinis, Fernando Pessoa (e heterónimos), Eça de Queirós, Antero de Quental, não esquecendo Aquilino Ribeiro sobre quem tece as mais elogiosas considerações, entre tantos outros.

Lilaz Carriço foi lida por uma vastidão de pessoas, nem todos concordaram com tudo o que escrevia, mas o seu compêndio correu mundo. E tempo para amar? Sabemos que amou. fogosamente. Que sofreu por esse amor. Ou por mais do que um. Amava a natureza e as desigualdades faziam-na sofrer. Era uma mulher intensa.

Também nas suas palestras, Lilaz Carriço escrevia para os poetas que interpretava, tal o êxtase que alguns lhe provocavam. Dos mil sonetos que se diz ter escrito, destacam-se obras como “Miragem no Tempo”, o “Labirinto da Vida” e o “Arco Íris Poético”-

Embora como já referimos, Camões fosse o seu santo graal sempre com algo novo para desvendar, escreveu apaixonadamente sobre vários escritores e Aquilino Ribeiro foi um deles. Numa das suas intervenções sobre ele, bastante extensa, diga-se, termina a sua prosa assim, antes de lhe dedicar um poema, posteriormente incluído na sua obra “Arco Íris Poético I Volume” (1988).

“Aquilino Ribeiro não é uma figura de lenda. A sua figura não se irá perder na noite dos tempos. Ainda será possível encontrar quem tivesse tido o prazer de sentir a sua presença, de ouvir a sua voz e a sua palavra rica e saborosa nesta Beira onde nasceu. É uma honra incomparável que poucas terras podem desfrutar, o ter sido o berço de tal génio”.

 

A AQUILINO RIBEIRO

Há seres tão sublimes nesta vida
Que assumem a estatura de gigantes
E que passam de fronte tão erguida
Que os pigmeus esmagam, arrogantes.

Os louvaminhas buscam, na corrida,
O conquistar as palmas triunfantes,
Mas arrastados, loucos, na partida,
Tropeçam e caminham vacilantes.

Um gigante das Letras, Aquilino,
Num trabalhar da língua sibilino,
Deu glória à sua Beira e a Portugal.

Fique, pois, a viver em todos nós
O eco que ressoa dessa voz
Que o torna, justamente, um imortal!

 

Fontes:
Câmara Municipal de Moimenta da Beira
Informação oficiais
Testemunhos familiares
Amigos

Conteúdo atualizado em21 de agosto de 2021às 00:08