Após um profícuo confronto de ideias sobre conceitos como paisagem, identidade cultural, tradições, valorização da comunidade coletiva, a conclusão principal da conversa sobre “O Impacto da Cultura nos Territórios: Por uma Política Cultural” convergiu na ideia de que a cultura não se pode esgotar num evento forte e ficar no vazio o resto do ano. A agenda cultural tem de ser contínua, planificada e aproveitar tanto os recursos locais como espetáculos de fora, num equilíbrio que sirva a todos e, de preferência, reforce a potencialidade turística de cada município.
Além disso, há novos desafios no horizonte que vão além da cultura: a substituição do homem pela tecnologia trará até 2040 novos urbanos para as zonas do interior. A preocupação do despovoamento poderá ser menor do que a do desemprego e da descaraterização identitária.
Se para o doutorado em Geografia Humana, Professor Associado da Faculdade de Arquitetura e investigador da Universidade do Porto, Álvaro Domingues, cada vez mais vivamos numa “sociedade líquida” em que já não habitamos “lugares” mas “sites”, haja agora estilos, relações, formas de estar pautados pela imprevisibilidade da mudança, onde a ideia da “minha terra” se esteja a diluir e os modos de vida a transformar-se radicalmente ao nível paisagístico, a diretora executiva das Aldeias Históricas de Portugal e coordenadora da PROVERE trabalha no sentido contrário.
A entidade supramunicipal que gere as aldeias históricas engloba dez municípios e desde 2016 começou a trabalhar com as populações para que não abandonassem as suas terras, com equipas no terreno a fazer-lhes ver as suas potencialidades, depois criando pequenos negócios, de turismo, cultura. “Trabalhamos muito na identidade. Não copiamos um projeto de uma aldeia para outra porque as pessoas não se reveem”, explicou. “Temos o caso de três aldeias em que a sobrecarga de turismo começou a interferir com a qualidade de vida dos habitantes”, revelou.
Embora a paisagem se vá transformando, nas zonas do interior ainda se vive muito do orgulho gastronómico, das festas, do que é tradicional, por isso há residências artísticas em cada aldeia e unidades onde se recriam pratos antigos. “Até 2040 temos de enfrentar desafios importantes de risco de identidade, com a chegada de novos urbanos, com a perda de trabalho nas cidades devido à tecnologia”.
Para o professor catedrático aposentado da Universidade Coimbra, que lecionou nas áreas de Filosofia, Teatro e Cultura, João Maria André, o poder político não pode alhear-se do seu papel de incentivador cultural, mesmo lidando com pontos de tensão. “Não gosto da ideia de descentralização cultural, mas sim de desconcentração. Não se tira nada de lado nenhum, replica-se”, avançou, mencionando o equilíbrio necessário entre “consumo e criação”. “Há que fomentar a criação local. Aliar as raízes ao novo”, advertiu.
O moderador, diretor do 23 milhas, projeto de Ílhavo, diretor do projeto Aldear, docente e fundador do Festival Bons Sons, Luís Ferreira, questionou porque é parece tão difícil obter fundos para a Cultura e, das várias respostas, Dalila Dias respondeu que, por vezes, nem sequer é necessário recorrer aos governantes da política nacional. Há também fundos comunitários para o efeito. “Mas nem todos os territórios podem ser indústrias culturais e turísticas”.