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Pedro Veiga: O furacão das letras. O mais excêntrico dos Pessoanos (parte I)

19 Março 2021

Pedro Veiga nasceu no dia 5 de Maio de 1910, em Moimenta da Beira, irmão de Luís Veiga, que nascera em 1904, filhos de Pedro Leitão Veiga e Maria do Carmo Crescente Veiga. Embora parecidos em alguns pontos, Pedro, o mais novo, veio a seguir um percurso que o colocou entre os mais excêntricos intelectuais nacionais, pela sua irreverência e excentricidade naturais, pela pioneira investigação da obra de Fernando Pessoa, pela quantidade de livros que deixou escritos e pelo legado impagável que nos deixou em nome dessa “obsessiva” paixão.

Estudou em Coimbra e Lisboa, onde concluiu as licenciaturas em Direito e Letras e habilitou-se também com o curso de Atividades Pedagógicas, o que, durante uns tempos fez com que andasse de cidade em cidade como docente do ensino liceal e técnico em Guimarães, Porto, Santarém e Lisboa. O cardeal Cerejeira, impressionado pelo seu percurso académico convidou-o para seu assistente, cargo que Pedro declinou alegando que “queria dedicar a sua vida a estar em casa a fazer livros e a procurar livros pelas bibliotecas”.

Esta dedicação às letras levou-o a começar a escrever cedo. Em 1929, ainda durante a vida de estudante, publicou sobre os erros históricos da historiografia contemporânea: “As Cortes Lendárias de Almacave”, um estudo sobre as Cortes de Lamego do Séc. XII. Em 1930, foi a vez de “Legendário de Quimeras”, um livro sobre a vida académica de Coimbra. Escreveu obras de caráter didático como “O Direito do Trabalho”, O Código da Estrada” e “Legislação do Inquilinato”.

Afinal, Pedro Veiga, até decidir dedicar-se em exclusivo à escrita e a Pessoa, foi advogado e chegou a ser, durante algum tempo, funcionário do Ministério do Interior e Agente do Ministério Público, lugares de que se afastou cumprindo a vontade que lhe corria fervorosa no sangue. Já na academia lhe era reconhecido o facto de editar os seus livros com dinheiro do próprio bolso. Acabou por tornar-se editor, tradutor, designer gráfico, para além de todos os títulos que acumulava. E escreveu, escreveu sem parar, toda a vida, sobre vários temas: Arte, Política, Direito, Cultura, História.

As suas fortes posições políticas terão prejudicado o seu lado de docente e, dizem as fontes consultadas, afastaram-no de um cargo a que aspirava: o de diretor da Biblioteca Municipal do Porto. O homem reservado que todos já reconheciam com seu saco cheio de livros e folhas de apontamentos, quando passava nas ruas portuenses, transformava-se quando algo feria o que achava correto nas suas duas paixões: as letras e a política. O homem que fascinava o sobrinho, Miguel Veiga, cujos testemunhos de entrevistas variadas usamos para caraterizar o pai nesta mesma rubrica, há uma quinzena.

O pai e o tio. Dois homens tão distintos nas suas excentricidades, mas similares no percurso político, nas convicções férreas, na busca pela justiça e ao qual o filho Miguel não escapou ao ir retirar o melhor de um e de outro. Também Pedro Veiga abominava a ditadura. Nunca poderia ter sido assistente do Cardeal Cerejeira. Nunca poderia ter trabalhado perto de alguém com laços tão estreitos com Salazar. Já bem jovem chegou a dirigir a revista “Seara Nova” e para este título, bem como a “Prometeu”, assinou dezenas de artigos.

Fundou vários movimentos contra o regime salazarista, o primeiro dos quais aquele que viria a ser o movimento da Renovação Democrática (MRD), em 1931, para o qual viria a ser eleito Secretário-Geral. Domingos Monteiro, outro dos fundadores do MRD, chamou ao movimento “o primeiro partido político de oposição à ditadura”. Pedro Veiga participou como dirigente da Renovação Democrática na campanha eleitoral para as Legislativas de 1945.

Em 1947, tal como o irmão, foi apoiante de Norton de Matos à Presidência da República, “redigindo muitos dos manifestos públicos da candidatura do General e intervindo em diversos comícios”. Em 1953, esteve igualmente na génese do Movimento dos Independentes, em prol da conciliação nacional. Três anos mais tarde começou a escrever o primeiro de dois volumes sobre os “Modernistas Portugueses”.

Como o seu dia parecia ter mais horas do que o comum dos mortais, Pedro Veiga começou bem cedo a estudar Fernando Pessoa, ao lado de nomes como Agostinho da Silva, Jorge de Sena, António Quadros, Teresa Rita Lopes, Georg Rudolf Lind, Jacinto do Prado Coelho, Joel Serrão e Eduardo Lourenço, entre mais alguns. Sob o pseudónimo de Petrus, que lhe assentava como uma luva. Revirou a obra de Pessoa de uma ponta à outra.

A nível pessoal, era um homem modesto. Segundo o sobrinho, Miguel Veiga, em entrevistas à Imprensa, alguns excertos já citámos oportunamente, inclusivamente este a Anabela Mota Ribeiro, o tio vivia com a avó. Não tinha tempo para exercer advocacia, foi vendendo as propriedades que o pai lhe deixara em Moimenta da Beira. Era um homem de “fúrias homéricas”, mas terá sido dele que herdou o gosto pela literatura e pela arte. De herança, também alguns desatinos e fúrias, o que levava a mãe de Miguel Veiga, a francesa que o pai foi buscar a Paris tomado de amores, a adverti-lo, por vezes: “Pareces o teu tio!”. “Mas ela adorava-o”, esclarecia.

Pedro foi de uma versatilidade estoica. Escrevia, traduzia livros para várias línguas, era editor, era designer, foi interventor político, um revolucionário; Petrus antologiava, investigava, divulgava e levava mais longe Fernando Pessoa e seus heterónimos. Foi considerado o mais excêntrico dos Pessoanos, o que melhor o sabia ler, não suportando sequer que associassem o poeta a qualquer leitura enviesada a insinuar um caráter fascista. Aí, crescia e vinham as fúrias. Contra tudo e todos.

A dada altura, o seu genial talento como Petrus foi reconhecido, passou a ser admirado no mundo literário. Anos e anos de dedicação integral à Cultura do Porto e do País. Com várias dezenas de títulos publicados com este pseudónimo, um sem número de obras assinadas por Pedro Veiga e outros tantos inéditos, e ainda longe de se lhe acabar a vitalidade, como é que terá sido a vida deste homem dual mas sempre igual a si mesmo?
Contamos-lhe na parte II.

 

Fontes:
Câmara Municipal do Porto
https://ruasdoporto.blogspot.com/2013/04/rua-pedro-veiga.html
www.casafernandopessoa.pt
Gouveia, Jaime (Marte e Minerva)
Entrevista de Miguel Veiga ao Semanário Expresso
Entrevista de Miguel Veiga ao Público
Texto autobiográfico de Miguel Veiga no Jornal de Letras
Entrevista de Miguel Veiga a Anabela Mota Ribeiro

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