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Francisco Vicente da Cruz (parte II) - A Arte: Bálsamo para a Inquietude

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18 Fevereiro 2021

Após fugir de um sócio que contratou um assassino para lhe acabar com a vida, no Pará, Brasil, Francisco Vicente da Cruz, já com algumas vidas gastas em aventuras rocambolescas, regressa aos Estados Unidos da América, não se sabe com que dinheiro, pois foi algo que nunca mencionou. Sabe-se que nunca se queixou da falta dele, desde que muito jovem saiu de Nagosa para ir trabalhar com o tio no Rio de Janeiro e começaram as suas peripécias entre o Brasil e os Estados Unidos.

Na sua curta e intensa fase a trabalhar no Club Camões, em Peabody Mass, aprendeu sozinho a tocar cornetim e violino como se sempre o soubesse. A tal fase que o próprio descreveu como se vivesse “sempre dominado por entidade sobrenatural, substância incorpórea e inteligente” que fazia dele um “aventureiro e leviano castiço”. Foi nesse período de hormonas flamejantes que chegou a tocar na Orquestra do referido Club e tão depressa se perdeu de amores por uma mulher que a seguiu inconsequentemente de barco.

História que acabou em tão grande desgosto e “trágicas consequências” que são breves as palavras que lhe dedica, além de que lhe deixou “vincos de tristeza” inapagáveis. Mas foi aí, no Club Camões que a música teve influência no seu destino. Quando voltou ao Pará, adoeceu novamente com malária, conheceu o sócio louco, foi salvo pelo próprio assassino que denunciou o mandante e pode crer-se que estamos perante um filme de ficção e Francisco Vicente da Cruz é já um homem feito, mas por esta altura ainda este andaria pela casa dos vinte e picos.

Ao fugir do Pará para não acabar a boiar no mar, de novo na América, filiou-se no Club Social Português de Elizabeth, New Jersey, onde fez parte da orquestra e foi ensaiador de grupo dramático, grupo esse considerado um dos melhores das agremiações portuguesas da América do Norte. Chegaram a ser convidados pelo Club Vasco da Gama, em Nova Iorque, para um espetáculo de variedades selecionado, a que se seguiria um chá dançante, para homenagear o tenor luso Lomelino Silva, que cantava no Metropolitan Opera House.

A homenagem terá corrido tão bem que Francisco Vicente da Silva recebeu o agradecimento com abraços em palco, quer do famoso tenor, como do cônsul português. No Club onde tocava foi também abraçado pelo pugilista português Santa Camarão, numa festa a si dedicada, durante uma das suas passagens por aquele País.

Com 29 anos, Francisco Vicente da Cruz regressa a Portugal, no ano de 1931. Porquê, não se sabe. Talvez se tenha cansado de estar longe dos seus. Não regressou a Nagosa para morar, mas a sua aldeia era para si um orgulho, pois em todos os seus livros: “Miscelânea de um Aldeão” (1978), “250 Sonetos de um Poeta do Povo para o Povo” (1979), o “Canto do Cisne- em Variações Poéticas” (1982) e “Passatempo em Habilidade Poética” (1984), assinou sempre Francisco Vicente da Cuz, Natural de Nagosa - Moimenta da Beira; Residente em Arcos - Tabuaço.

Foi em Arcos que acalmou, casou com uma brasileira, Dalgisia Mendes Ferreira, professora do ensino básico, e ali se dedicou à cultura popular, à música e à poesia. Criou um grupo folclórico, com músicas compostas por sua mão, radiofundidas em 1957 pelo Emissor de Miramar e Régua, que mereceu elogios num artigo do Boletim da Casa Regional da Beira Douro no mesmo ano.

Antes de se dedicar aos livros mencionados acima, este leitor que “pouco lia mas lia em qualidade”, ganhou prémios pela sua poesia em vários concursos, o que impulsionou a sua “propensão para poetizar”. No seu terceiro livro, o “Canto do Cisne - em Variações Poéticas”, convidou a professora e poetisa, Lilaz Carriço − também ela filha de gente beirã (Cabaços), regressada de Manaus a Moimenta da Beira, cujo livro “Literatura Prática” foi estudado por gerações − para prefaciar a sua obra.

A poetisa admite a sua admiração por este “Aleixo das Beiras”, que se “afirma ora em recortes de jornal de poesia galhofeira, ora o bairrista que nos oferece belos diapositivos poéticos das terras dos seus encantos – Tabuaço, Moimenta da Beira, Viseu, Arcos, Nagosa – A Beira com toda a riqueza da sua tradição, ora o aventureiro que nos faz ir até às Américas, ora o homem que se autoanalisa e retrata, depois, em significativos poemas”

Nesta heterogeneidade surge também o poeta com a sua escrita “conceituosa, moralista, de um fino observador da vida com uma sabedoria que ao de leve encosta aos clássicos, mas principalmente bebida da fonte pura do povo como vemos em Sá de Miranda”.

Na freguesia onde morou, como em Nagosa, Vicente da Cruz, um homem alto e magro era conhecido como o Francisquinho. A sua profissão era a arte, logo era difícil defini-la. Em Arcos diz-se que “era poeta”, “andava com os seus violinos”. Compôs o hino de S. Silvestre, santo padroeiro de Arcos. As gentes com que se dava achavam-no simpático, algo reservado, mas que falava com todos, mais folgazão em dias de paródia onde o seu lado humorístico se libertava. Francisco e Gigi, como era conhecida a esposa, tiveram um filho, Arlindo, recentemente falecido, que lhes deu uma neta, luz dos seus olhos.

Francisco Vicente da Cruz morreu em 1985, com 83 anos. Da “substância incorpórea” que o impelia a ser um homem inquieto, impulsivo, talvez a tenha passado para o papel, onde a sua escrita, que tanto faz rir, como chorar deixa transparecer um homem vivido, culto, apaixonado, um autodidata criativo, apaixonado pela Beira.
(Fim)

 

Do livro “Canto dos Cisnes”, homenageamo-lo com um dos seus poemas

Heróis da Beira

Heróis do mundo, um por um
Inquiri no meu passado
Mas não encontrei nenhum
Como o Beirão (Decepado)

Berço de ouro beiraltino
que eu canto por toda a parte
Foi o berço de Aquilino
E o berço de D. Duarte

Beira Alta, Beira Alta
orgulho de Portugal
Onde o heroísmo ressalta
Nesse rincão sem rival

Corri Portugal inteiro
para encontrar um valente
Na Beira achei um viveiro
de heróis. Ó Deus, mas que gente!!!

Tantos heróis que há na História
de Portugal! Tão leais!
Os mais cobertos de glória
São das Beiras naturais!

Conhecido em mundo inteiro
Portugal jardim frondente
Saibam que a Beira é um canteiro
desse jardim florescente!

Heróis da Europa inteira
procurei ao menos um
que fosse igual aos da Beira
(mas não encontrei nenhum)

Beira Baixa, Beira Alta
mais a Beira Litoral
onde o heroísmo não falta
p´ra enaltecer Portugal

Nesse pequeno torrão
quando as coisas correm mal
existe sempre um beirão
para salvar Portugal!

 

Fontes:
Bento da Guia, A (As Vinte Freguesias de Moimenta da Beira)
Vicente da Cruz, Francisco (O Canto do Cisne)
Carriço, Lilaz (Prefácio O Canto do Cisne)
Testemunhos orais Arcos (presidente da Junta, Câmara Municipal de Tabuaço)
Testemunhos orais Nagosa

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