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O aventureiro (parte I)

04 Fevereiro 2021

Nagosa, 1902. Nasce Francisco Vicente da Cruz, o primeiro de seis irmãos, filhos de Francisco Vicente da Cruz, de Sarzedo, Moimenta da Beira, e de Maria Carmina de Carvalho, de Longa, Tabuaço. Aos 13 anos, morre-lhes o patriarca e, embora viajar para o Brasil naquela época fosse sonho para poucos, a mãe manda o primogénito trabalhar com o tio no Rio de Janeiro para os chamados Grandes Armazéns do Louvre. É o próprio que o narra na pequena autobiografia que acompanha os seus livros de poesia.

O tio, Boaventura, quis que ele passasse do balcão para a caixa e matriculou-o no Curso Comercial da Associação Cristã dos Moços, uma estrutura associativa de origem norte- americana ramificada por todo o mundo com o selo Y.M.C.A. Francisco assume que “pouco ou nada” aproveitou e acabou por ser expulso por dar faltas, preferindo o divertimento e a ginástica, para grande pena do seu professor que acreditava na sua inteligência.

Rebelde, com sorte ou não, apareceram-lhe sempre pessoas determinantes que o livraram do pior. Três anos depois, foge com o seu primo Vicente para Manaus, com viagem paga por este. Ali abriga-se na casa do meio-irmão Inácio, filho da primeira mulher do seu pai, mas as coisas não lhe correm bem, pois contrai a malária e não consegue trabalhar nem curar-se. Eis que mais um amigo lhe aparece no correr do vento, João de Carvalho Lagarto, de Lamego, que quase o obriga a regressar a Portugal para se tratar, com o compromisso de lhe pagar a viagem e a mãe lhe devolver a verba depois.

Era suposto ir até ao Pará escondido no porão por um marinheiro conhecido do seu amigo, mas foi travado pela oficialidade inglesa do navio, que o pôs fora do barco. Nada os demoveu, nem a promessa de mais dinheiro. Mas Francisco também não desistiu e procurou ajuda do seu primo José, da casa Ferreira Costa, possuidora de vários barcos à vela em viagens entre Pará e Porto. A viagem foi um Inferno, enfrentaram uma tempestade de terror, mastros e velas destruídos, navio partido e Francisco chegou à aldeia, quando já davam a embarcação perdida e o julgavam perdido no mar.

A viagem durou o triplo do esperado. O caricato foi quando o nosso biografado, já o mar amainado, é questionado pelo comandante do barco que livro está ele a ler no convés e o outro lhe responde: “É o livro de S. Cipriano que uma velhota da minha terra me recomendou!”. Vai o livro borda fora, com o comandante a resmungar que podiam estar todos mortos, graças ao livro, mas não morreram por sorte! Surgiu o auxílio e com sardinha viva para matar a fome. “Nunca comi tanta sardinha na minha vida”, escreveu.

Chegou a Nagosa vivo, doente e mais pobre do que nunca. Vencido, nunca. Quando se viu curado despertou-lhe novamente a sede de correr mundo. Abandona a sua pacata aldeia, embarca para a América do Norte e arranja trabalho como operário nas fábricas Singer e nas de automóveis Chevrolet e Ford. O próprio confessa o seu espírito à época: “aventureiro e leviano, um admirador do belo sexo”.

Foi esse interesse pela beleza que o guiou aos ambientes noturnos. No Club Luís de Camões, em Peabody Mass, revelou-se o seu jeito para a música. Chegou a tocar cornetim na banda e violino na Orquestra. Sol de pouca dura mas semente para o futuro. De coração a jeito, tomou-se de uma paixão arrebatadora, que o levou de novo ao Pará e lhe deixou “vincos de tristeza que não se apagarão jamais”. Já não bastaria o desgosto, voltou a contrair a malária. Depois disso, tornou ao Rio de Janeiro, onde mais peripécias o esperavam.

Fez-se sócio de um charlatão numa casa de frutas e vegetais. Cedo percebeu que o parceiro não era de boa índole e acabou por descobrir, por um cochicho ouvido sem querer, que havia algo suspeito prestes a acontecer. Dirigiu-se a um terceiro que iria com ele fazer umas entregas e soube por este que o sócio o tinha contratado para o matar, após o suposto negócio. O próprio homem que o ia matar sugeriu-lhe que fugisse dele e que o mataria para ele ficar seguro. Francisco recusou inverter os papéis. Preferiu ir embora.

Imparável, assim que pôde regressou aos Estados Unidos onde nova aventura se iniciaria. Era um homem impelido por uma força que parecia sobrenatural, chegou a dizer. Na terra dele diriam que tinha bichos- carpinteiros. Acalmaria na sua nova etapa?
(continua na próxima quinzena)

 

*Apesar de ter começado a escrever mais tarde, muito depois do ponto onde interrompemos a nossa narrativa, aqui deixamos dois dos seus sonetos, da sua obra “250 Sonetos de um Poeta do Povo para o Povo”, o terceiro dos seus livros. Bastante versátil, mistura o humor e a crítica habilmente, demonstrando uma vasta cultura geral.

 

Que Grande Desenhista

Na América do Norte um português
foi à mercearia p´ra comprar.
Mas tem dificuldade no falar
porque chegou da terra só há um mês

Um bacalhau comprar ele pretendia
e o pediu em língua portuguesa
O merceeiro então com mui tristeza
lhe fez notar que o não compreendia


Não entendia, o chefe, o seu freguês
E o lusitano a ideia teve então:
Um bacalhau em um desenho fez.

Vendo o chefe o desenho, no balcão,
foi lá p´ra dentro e trouxe ao português
a coisa mais par'cida: um violão!

 

Como Algumas Raparigas Comparam o Homem com o Cão

Homem Valente, igual a – cão de fila!
Homem namorador, igual a – cão fraldisqueiro!
Homem sério, igual a – cão perdigueiro!
Homem solteiro − cão de rua ou vila!

Casado, é − cão de guarda ou cão caseiro!
Homem sábio, é – cão de raça fidalgo!
Homem vaidoso, é – cão de raça galgo!
Homem esperto, é tido como – cão rateiro!

Homem modesto − cão da Terra Nova!
Homem ignaro – cão a pedir cova,
por não ser homem de dicção.

Homem pérfido, é um – cão lobeiro
que bate na mulher como em pandeiro!
Homem leal – cão simples, simples cão!

 

Fontes:
Bento da Guia, António (As Vinte Freguesias de Moimenta da Beira)
Cruz, Francisco Vicente (curta resenha autobiográfica que acompanha os seus livros)

Francisco Vicente da Cruz