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Um professor e um escritor à frente do seu tempo (parte I)

11 Dezembro 2020

Se os primeiros anos de uma vida moldam de forma significativa o percurso de uma pessoa, José Francisco Pereira, o primeiro dos “nossos” poetas e escritores, beirão por reviravoltas do destino, terá sido por eles guiado, transformando as dificuldades de um início de vida tortuosa num caracter único: uma mistura de força e irreverência, visão e inteligência inatas.

Nunca conheceu figura paterna, falecida antes do seu nascimento, em 1895, mas esperavam-no mais dois irmãos e a mãe, num meio humilde em Vidual, na comarca de Arganil. Uma pequena aldeia, parte da qual haveria de desaparecer aos olhos dos homens, submersa pela barragem de Santa Luzia.

No raiar de um século pleno de mudanças e desafios, por questões financeiras, ainda bastante jovem, foi a custo que teve de separar-se da família para ir estudar. Arranjou trabalho em Lisboa e estudou em horário pós-laboral no Liceu de Camões. Foi também como trabalhador- estudante que frequentou a Escola Normal, de Vila Real, e aí tirou o curso do Magistério Primário com nota máxima.

Começa aqui aquela que viria a sua carreira como professor primário, vida errante durante vários anos que só mais tarde o levou a Moimenta da Beira. O amor às letras só ele saberá quando teve início, mas o que sabe é que o seu primeiro romance, autobiográfico, “Os Três Órfãos” data de 1927, tinha o autor 32 anos. A narrativa de uma infância sem pai que não deixou de querer eternizar. Às suas lutas pela sobrevivência o tempo trouxe outras perdas inesperadas, como a morte dos irmãos, cedo demais, todos levados pela tuberculose.

Dores que guardou para si, numa gaveta de poemas, não deixando que as mesmas o transformassem numa pesssoa com uma personalidade menos surpreendente para a época. Como docente, passou por Sambade, Granjal, Vila Nova de Paiva, Lisboa, Arcozelo da Torre e Moimenta da Beira, onde teve cinco filhos, um rapaz e quatro raparigas, Joaquim, Emília, Dulce, Ruth e Teresa.

Como se Portugal lhe fosse do tamanho da palma de uma mão redigiu artigos para publicações como O Comércio do Porto, Diário de Coimbra, o Diário do Minho, Jornal de Viseu, Gazeta Ilustrada, A Comarca de Arganil, Debate e Correio Beirão.

Foi, no entanto, no Diário de Coimbra, na rubrica Palco da Verdade que se tornou mais conhecido e, no seu estilo tão irreverente quanto livre, os temas que escrevia chegaram a valer-lhe um ou outro revés, nomeadamente o seu afastamento da rubrica mencionada por uma crónica sobre Ferreira Castro, com a qual a redacão do jornal não terá concordado.

Mas essa maneira de ser trouxe-lhe também algumas surpresas. Curiosamente, correspondia-se regularmente com escritores de vulto como o próprio Ferreira de Castro e também com outras figuras de renome, como Veiga de Macedo e António Correia de Oliveira. Devido à sua frontalidade, José Francico Pereira, que tinha escrito um correr de artigos de opinião sobre promoção e segurança social, levaram a que o ministro da Previdência quisesse conhecê-lo durante uma das suas visitas a Lamego.
Dotado de uma energia infindável publicou em 1952 um conjunto de artigo de opinião publicados no “Diário de Coimbra”, transformado em livro, no qual munido dos seus melhores argumentos e de um grande grupo de leomilenses aguerridos se travam de razões com Aquilino Ribeiro, através de cartas bem documentadas, por este se referir sempre à Serra- Mãe, tal como chegaram a atestar as antigas memórias paroquiais do século XVIII: Serra da Nave.

Leomil por ali ter o seu cume, Nave por ali ter o seu planalto, a dita Serra foi mudando de nome ao longo dos tempos, mas naquela época, nunca se vira um argumentário tão organizado de José Francisco Pereira e dos vários amigos que o envolveram na causa. De tal modo foi o esmero na escrita e as missivas dos leomilenses desmentindo Aquilino, respeitosa mas arrojadamente, que a causa teve direito ao livro: “Leomil e Serra de Leomil”.

Será José Francisco Pereira capaz de surpreender mais ao, apesar de parecer um homem de um trilho sério, dar de vez em quando um salto inesperado? Sempre para ajudar, para avançar, para melhorar? A sua obra, a sua profissão, a sua natureza como pessoa provam-no. Este foi um homem sempre capaz de tirar, espontaneamente, uma carta da manga, como alguém que vê mais além.

(continua e acaba na próxima quinzena)

 

Fontes:
Gouveia, Jaime (Marte e Minerva)
Bento da Guia (As vinte freguesias de Moimenta da Beira)
Testemunhos

José Francisco Pereira